
Quem nunca correu o olho pela janela esperando o uniforme amarelo e azul surgir na rua? Quem nunca sorriu ao ouvir o famoso grito — “Cooorreeeiooo!!!” — ecoando no portão, trazendo uma carta de amor, um documento esperado ou o presente de um parente distante? Os Correios são mais que uma empresa pública; fazem parte da memória afetiva e da identidade do povo brasileiro.

Mas, longe das ruas e dentro dos gabinetes das “excelências”, o som que ecoou nos últimos anos foi outro: o do rombo, do saque e do descaso.
O Postalis, fundo de previdência dos funcionários da estatal, transformou-se no palco de um dos maiores absurdos financeiros do país. O prejuízo estimado já atinge a impressionante marca de R$ 15 bilhões. O motivo? Uma mistura nefasta de má gestão e investimentos desastrosos administrados, em grande parte, pelo banco BNY Mellon. Enquanto os tubarões do mercado financeiro e os gestores irresponsáveis seguem blindados por recursos judiciais infindáveis, a conta — como sempre — sobrou para o elo mais fraco.
24% de desconto: A punição de quem trabalhou a vida inteira
A realidade exposta em recente audiência pública na Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados é de cortar o coração e revoltar qualquer cidadão de bem:
- O tamanho do confisco: Trabalhadores da ativa e aposentados estão sofrendo um desconto cruel de 24% direto no salário ou benefício para cobrir o rombo.
- Tempo de agonia: Essa cobrança já se arrasta por longos 16 anos, sem previsão de acabar.
- O impacto no prato de comida: Muitos aposentados que recebem salários modestos, entre R$ 1.200 e R$ 2.000, viram um quarto da sua sobrevivência sumir do contracheque. Para piorar, o benefício da pensão por morte foi extinto.
“Os trabalhadores contribuíram a vida inteira para formar sua poupança complementar. Hoje, quase um quarto é descontado”, lamentou Roberval Borges Correia, presidente da ADCAP. Mais de 10 mil pessoas já abandonaram o plano por desespero, incapazes de pagar a conta do erro dos outros.
A lentidão da Justiça e o labirinto dos recursos
Para onde foi o dinheiro? O BNY Mellon já foi condenado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e enfrenta uma enxurrada de ações movidas pelo Ministério Público Federal (MPF) e pelo próprio Postalis. No entanto, o labirinto jurídico brasileiro permite que o banco continue recorrendo, segurando os valores bilionários bem longe do bolso de quem realmente precisa.
Enquanto o TCU aponta condenações de R$ 833 milhões, o banco consegue liminares e tutelas de urgência na Justiça para suspender as cobranças. É a burocracia servindo de escudo para os poderosos, enquanto o carteiro, que caminhou debaixo de sol e chuva por décadas, é penalizado imediatamente todo quinto dia útil.
Justiça tardia é injustiça
O deputado Luiz Carlos Motta (PL-SP) cobrou o óbvio: punição rigorosa aos responsáveis. Se a fiscalização da Previc (Superintendência Nacional de Previdência Complementar) melhorou hoje, isso não apaga as cicatrizes do passado.
Não podemos aceitar que a desoneração da dignidade desses trabalhadores vire a regra. Defender os “amarelinhos” não é apenas defender uma empresa histórica; é exigir que o dinheiro poupado com o suor, com a força de trabalho e com a vida de milhares de brasileiros seja devolvido.
Quem roubou a poupança dos Correios precisa pagar. O bolso de quem trabalhou honestamente não pode continuar sendo o caixa eletrônico da corrupção e da incompetência.
Redação Plenarioemfoco /com informações de Emanuelle Brasil > Edição – Marcelo Oliveira
Fonte: Agência Câmara de Notícias foto Renato Araújo / Câmara dos Deputados
