
Em um crescimento descontrolado que ameaça superar até o número de partidos políticos no país, as plataformas de apostas — as famosas bets — entraram definitivamente na mira do Congresso Nacional. O principal alvo? A publicidade agressiva que utiliza influenciadores digitais, atletas e entidades esportivas para vender uma ilusão: a de que o jogo só tem um lado bom.
Essa estratégia não é nova para o cidadão brasileiro. Há anos o povo aguarda pelo fim do guia eleitoral gratuito, aquela propaganda política que também só anuncia o lado perfeito dos candidatos, omitindo crises e promessas não cumpridas. Chegou a hora de aplicar um freio em ambos. Se o cigarro carrega alertas explícitos e chocantes em seu maço, por que as bets e o horário político continuam imunes? Ambos lidam com o comportamento, as finanças e o futuro do cidadão.

Em audiência pública realizada nesta terça-feira (7) pelas comissões de Direitos Humanos (CDH) e de Assuntos Sociais (CAS) do Senado, especialistas, parlamentares e representantes da sociedade civil foram categóricos ao exigir restrições severas à publicidade das apostas de quota fixa.
“Acabar com a publicidade é ‘para ontem’. Não pode haver influenciadores nem atletas promovendo apostas. É uma combinação explosiva”, afirmou o senador Eduardo Girão (Novo-CE), defensor da proibição da atividade.
O impacto social já se mostra devastador. Relatos contundentes, como o da “desinfluenciadora” Jéssica Lobo — que perdeu a irmã para o vício e hoje lidera grupos de apoio com mais de 10 mil afetados —, revelam que a propaganda massiva liderada por celebridades é o principal gatilho para recaídas.

O preço desse mercado, que operou por cinco anos sem regulamentação após a lei de 2018, já está sendo cobrado no bolso e na saúde mental dos mais vulneráveis. Dados da Defensoria Pública de São Paulo apontam que a maioria esmagadora dos apostadores possui baixa renda e menor escolaridade. Enquanto os influenciadores lucram e os clubes exibem patrocínios milionários, os serviços públicos, como as Defensorias e os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), enfrentam uma sobrecarga para lidar com o superendividamento e a dependência.
A realidade, omitida nos comerciais coloridos do celular e da TV, precisa ser dita com todas as letras: no jogo de azar, a banca sempre ganha. Passou da hora de a legislação brasileira exigir que a publicidade — seja das apostas ou da política — mostre os dois lados da moeda.
Redacao Plenarioemfoco / com informações Agencia Senado / fotos Waldemir Barreto/Agência Senado
