
A conta do orçamento de 2027 promete chegar pesada. Enquanto o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) aposta em um cenário cor-de-rosa com superávit de R$ 18,6 bilhões, a Instituição Fiscal Independente (IFI) puxa o freio de arrumação e desenha um quadro de alerta: a projeção é de um déficit primário de R$ 86,1 bilhões. Estamos diante de um hiato de R$ 104,8 bilhões entre o discurso oficial e a realidade calculada pelos técnicos.
Publicado no Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF 116), o estudo aponta que o abismo começa nas premissas macroeconômicas. Enquanto o governo projeta uma expansão do PIB de 2,5% para o próximo ano, a IFI estima modestos 1,8% — número ainda mais distante do 1,5% previsto pelo Boletim Focus. Diferenças semelhantes aparecem nas estimativas de inflação (IPCA) e de massa salarial, essenciais para o cálculo da arrecadação.
Do lado dos gastos, os diretores da IFI, Marcus Pestana e Alexandre Andrade, apontam que o governo confia excessivamente em sua estratégia de revisão de despesas, enquanto a proposta oficial subestima o peso de rubricas como previdência, BPC, abono salarial e sentenças judiciais.
O resultado dessa conta é duro: para cumprir as regras do arcabouço fiscal, o governo precisaria contingenciar pelo menos R$ 35,7 bilhões. E o dado mais alarmante — essa conta nem sequer inclui o aporte de R$ 33,8 bilhões ao Fundo de Compensação aos Estados previsto pela reforma tributária.
Para completar o diagnóstico, o relatório joga luz sobre o calcanhar de Aquiles dos juros brasileiros. Para a IFI, a culpa pelos juros persistentemente altos não pode ser jogada apenas no colo do Banco Central. O prêmio de risco, fortemente atrelado ao desajuste das contas públicas, ocupa o centro da volatilidade dos títulos de longo prazo. Em 2027, o Brasil continuará a ser cobrado pela fatura de sua indisciplina fiscal.
Redaçao plenarioemfoco / com informações de Marquezan Araújo/Brasil61 > Foto: José Cruz/Agência Brasil/Arquivo
