
O debate global sobre o futuro do mercado de trabalho costuma ser dominado por temas como o home office, o nomadismo digital e a redução da jornada semanal. No entanto, o trabalhador brasileiro real mantém os pés firmes no chão. De acordo com a 69ª edição da pesquisa Retratos da Sociedade Brasileira: futuro profissional, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), fatores tradicionais associados à segurança financeira e jurídica continuam sendo as grandes prioridades para os próximos cinco anos.
O levantamento aponta que a busca por um salário mais alto lidera a lista de desejos dos profissionais, sendo apontada por $28,7\%$ dos entrevistados. Em seguida, aparecem a estabilidade no emprego ($22,4\%$) e a perspectiva de crescimento profissional ($20,1\%$). Benefícios modernos e não pecuniários, embora muito debatidos no pós-pandemia, ficaram em segundo plano: a flexibilidade de horário atrai $19,3\%$, o trabalho remoto foi citado por apenas $15,9\%$, e a jornada reduzida ficou na lanterna, com $9,8\%$.
Para Claudia Perdigão, especialista em Políticas e Indústria da CNI, o resultado demonstra que a busca por um porto seguro ainda orienta os planos de médio e longo prazo. “Apesar do crescimento da discussão sobre benefícios como home office, os elementos mais tradicionais continuam sendo valorizados e orientando o trabalhador”, avalia.
A força da carteira assinada
Essa busca por proteção reflete diretamente na preferência pelo modelo de contratação. O emprego formal, regido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), continua sendo o padrão ouro para mais de um terço dos profissionais que buscam recolocação.
Surpreendentemente, essa preferência é ainda mais acentuada entre os jovens de 25 a 34 anos — uma geração frequentemente associada ao desejo de liberdade profissional. Nessa faixa etária, $41,4\%$ apontam a carteira assinada como a modalidade ideal.
É o caso da brasiliense Gabriela Vale, de 29 anos. Em maio, ela optou por deixar um emprego 100% remoto em uma assessoria de comunicação para assumir uma vaga totalmente presencial, motivada pelos direitos garantidos pela legislação. “O salário seria pouca coisa maior, mas teria os benefícios da CLT, que para mim são atrativos maravilhosos. Só por isso eu optei por aceitar”, relata.
O fantasma da tecnologia e o apagão de habilidades
Se por um lado o trabalhador sabe o que quer, por outro, o futuro se mostra nebuloso. A pesquisa revela que $43\%$ dos brasileiros não sabem dizer em qual profissão estarão trabalhando daqui a cinco anos. O índice de incerteza é ainda maior entre os profissionais mais velhos.
A CNI atribui esse cenário de ansiedade às transformações tecnológicas iminentes, puxadas sobretudo pelo avanço da inteligência artificial (IA). “Existe uma grande incerteza sobre como as profissões vão responder a essas mudanças. Essa percepção leva o trabalhador a olhar para a sua trajetória e questionar como deve prosseguir”, explica Perdigão.
O receio ganha força quando confrontado com o nível de capacitação digital do país. Embora $54\%$ dos brasileiros declarem ter domínio médio ou alto de habilidades digitais básicas, esse número despenca para $44,5\%$ quando são exigidas competências complexas — como operar ferramentas de IA, configurar programas ou gerenciar planilhas eletrônicas avançadas. A falta de qualificação exigida pelo mercado já é apontada por $12,7\%$ dos entrevistados como uma das principais barreiras para o crescimento.
Empreendedorismo como alternativa
Para os profissionais que conseguem visualizar o futuro fora do mercado corporativo tradicional, o sonho do negócio próprio continua vivo. Entre os entrevistados que projetam os próximos passos, $13,9\%$ afirmaram que pretendem se tornar empreendedores. Os setores preferidos para o investimento são o comércio varejista e o segmento de serviços, com destaque para bares, restaurantes e salões de beleza.
Diante de um cenário de transição, a pesquisa da CNI desenha um trabalhador resiliente, mas ciente dos riscos: satisfeito com o emprego atual, reticente a mudanças arriscadas e focado em garantir sua sustentabilidade financeira antes de priorizar o conforto.
Redação Plenarioemfoco / com informações de Reportagem: Paloma Custódio Brasil61 > foto Marcelo Camargo Agencia Brasil
